


JUPIRA


Bernardo Guimares




ASSOCIAO ACERVOS LITERRIOS
BIBLIOTECA VIRTUAL
MARIANA
2005

EDIO E ATUALIZAO ORTOGRFICA:
Leopoldo Comitti

CONSULTORIA EM INFORMTICA:
Igor Guedes de Carvalho

MISCIGENAO E REGIONALISMO

Leopoldo Comitti

        Jupira, por seu ttulo e parte de seu enredo, poderia ser considerado um romance indianista. H nele comentrios sobre os costumes dos indgenas, sua vida 
errante, alm das inimizades entre tribos diferentes. Boa parte da obra se passa nas selvas brasileiras, o que d oportunidade ao narrador de discorrer sobre a vida 
agreste, fazer digresses sobre a natureza e salientar o exotismo dos hbitos indgenas.
        Apesar dessas caractersticas, seria algo forado considerar Jupira uma obra indianista, uma vez que a trama esboada por Bernardo Guimares poderia ter 
sido ambientada em cenrio diverso e protagonizada por quaisquer brasileiros. Possui mais, o romance, ares de tragdia, que de texto indianista. Alis, transformar 
o indgena em smbolo da nacionalidade nunca esteve nos horizontes do autor. Se, em algumas obras, fez deles personagens, f-lo unicamente por seu projeto de construo 
de um romance regional; portanto, sendo inescapvel a presena de alguns nativos dentre seus personagens. 
        Apenas em sua poesia pardica, notadamente O Elixir do Paj, utiliza a condio indgena como elemento fundamental da obra; isto porque h no poema uma evidente 
inteno de ironizar I-Juca Pirama, de Gonalves Dias. 
        Talvez por sua averso ao nacionalismo calcado na mitificao do ndio Bernardo Guimares tenha conseguido construir uma obra original para o seu tempo. 
Ao sublinhar a beleza extica de Jupira, e discorrer sobre seus complexos amores, toca na questo da miscigenao, tema pouco ou nada explorado pelos romnticos. 
Jos de Alencar apenas aponta para to importante questo, ao fazer sobreviver Moacir (o filho da dor), ao final de Iracema. 
        Descontando-se aos exageros de melodrama folhetinesco, o painel traado em Jupira j antecipa preocupaes que somente mereceriam um maior cuidado no sculo 
XX, notadamente na obra de Monteiro Lobato, em que o caboclo se sobressai. Assim, j com algumas cores naturalistas, Bernardo nos d mais uma mostra de sua inquietao 
e de seus constantes desvios da potica romntica dominante. Apesar de no ser uma das obras mais bem acabadas do autor, merece nossa ateno por seu toque, mesmo 
que esmaecido, de uma originalidade temtica. 















CAPTULO I

        Jupira esta sentada  sombra de uma canjerana ainda nova, de folhagem mui viosa e cerrada, que dava fresqussima sombra. Estava tecendo um cabaz de palhas 
de buriti, enquanto sua me, ndia algum tanto idosa, a alguns passos de distncia, moqueava um gordo e grande ti1.
        Era isto  margem do Rio Grande de Minas Gerais, algumas lguas acima das paragens onde ele, reunindo-se ao Parnaba, toma o nome de Paran.
        Como a pequena rvore, que lhes prestava sombra, Jupira era tambm uma flor nova das selvas, que apenas abria o clice s viraes do deserto; uma ainda 
caboclinha de treze a quatorze anos, mas de tez um pouco mais clara do que a das suas companheiras da floresta. Era no veranico de janeiro; o rio estava baixo, e 
na larga zona de areia, que mediava entre eles e a floresta que o bordeja, viam-se dispersos alguns bugres de ambos os sexos, uns pescando ou banhando-se, outros 
dormindo ou comendo. O sol ardentssimo do meio-dia reverberava no seio do rio e nas areias da praia, a ponto de ofuscar as vistas; estava um calor insuportvel.
        Pouco abaixo daquele grupo via-se um indgena de formas truculentas e vigorosas cortando as guas em todas as direes, ora nadando com rapidez, ora boiando 
 flor do rio, ora sumindo-se de mergulho na profundeza dos rebojos, e era preciso olhar com muita ateno para ver que tinha em uma das mos uma delgada linha. 
Ningum diria que ele estava pescando. O ndio pesca  linha os grandes peixes, quase como quem persegue um veado ou uma anta atravs de campos e florestas. Com 
um pequeno anzol ou fisga, e uma linha de tucum2 da grossura de um fio de barbante, pescam no s os pequenos bagres e piratiningas, como os corpulentos dourados 
e crumats, e o ja, que atinge, s vezes, o tamanho de um homem de alta estatura, e tem a fora de um touro. Apenas o peixe ferra a isca, e que o ndio o percebe 
fisgado, em vez de procurar pux-lo   terra, salta na gua e d-lhe corda, acompanhando-o em todas as voltas que lhe apraz dar pelo rio, tenteando a corda de modo 
que no se quebre, como quem tempera as rdeas a um poldro bravio e fogoso. A prpria fora do peixe arrasta o ndio e o ajuda a romper as guas sem fatigar-se muito, 
e assim, ora pairando  flor do rio, ora cortando-o veloz como uma seta, ora sumindo-se nos escuros abismos, o ndio acompanha todos os seus movimentos, at que 
o peixe, extenuado de cansao, se deixa facilmente arrastar para a praia. 
        Depois de ter gasto cerca de meia hora naquelas evolues, o ndio surgiu  praia agarrando pelas guelras com ambas as mos e arrastando a custo um enorme 
peixe que media a altura de seu corpo, e ainda a cauda vinha abrindo um sulco pela areia, e dirigindo-se  sombra onde se achava a linda caboclinha.
        -Uff!... Jupira!... - exclamou, largando o peixe e deixando-o estourar no cho; sei que no gostas de ti, que  o que tua me tem para te dar, e fui ao 
fundo do rio buscar esse peixe para ti; custou-me bem a arranca-lo d'gua. Fala menina, qual desses teus fracos companheiros  capaz de lutar no fundo d'gua com 
um peixe destes?
        Jupira contemplou o peixe por alguns instantes com admirao, depois olhou para o ndio, fez-lhe um ligeiro gesto de agradecimento e continuou no seu servio. 
O ndio deitou-se de ventre sobre a areia a alguns passos de distncia e fitava os olhos ardentes sobre a gentil menina. Parecia truculenta jibia procurando fascinar 
com os olhos a tmida pomba, que pretende devorar.
        -Ento ingrata curumim, - disse o ndio abanando a cabea, - de todo modo no queres saber do infeliz Baguari?...
        Por nica resposta Jupira levantou-se, e levando o seu trabalho foi sentar-se por detrs de sua me, como para esconder-se do ndio e furtar-se a seus olhares 
devoradores. 
        Baguari ps-se em p de um salto, arrancou do ntimo peito um gemido rouco, antes um rugido, e disse:
        -Jupira, olha que o cangu quando v a veadinha tenra pelos bosques, nunca mais lhe perde o rasto, e no descansa enquanto no lhe lana as garras. E eu 
sou o canguu e tenho fome de ti!
        -Baguari! - exclamou a me assustada por sua filha, que cada vez mais se chegava a ela; - a menina ainda  muito nova... olha agora  que os peitos lhe vem 
apontando. Para que apanhar a flor que ainda no abriu, colher os favos do jata que ainda no tm mel?... Deixa passar mais algumas luas; quando o ip der flores 
outra vez, Jupira te abraar. 
        -No fale assim, minha me! - murmurou a menina ao ouvido de sua me. - Assim pudesse o ip nunca mais dar flores!
        Baguari afastou-se silencioso, e chegando ao meio do areal da praia, bateu palmas e soltou um assovio estridente como o da anta. A horda que se achava dispersa 
pela margem reuniu-se em torno dele. Baguari mostrou-lhes o peixe, e os selvagens, soltando alaridos de alegria, em um instante o fizeram em postas, levando cada 
um o seu pedao, para se banquetearem aquela tarde.
        Jupira disse a sua me:
- No viu aquele peixe to grande, que Baguari matou?
-Pois no vi, minha filha?... foi para ti que ele pescou.
       -No quero do seu peixe, nem de nada que passar por suas mos. Tenho mais medo dele do que daquele ja, se o encontrasse no funda d'gua. 
       Da a pouco a tarde trazia sombras e fresquido por aquelas magnficas solides e os ndios, tripudiando e banqueteando-se, com seus alaridos, faziam saltarem 
espantadas as feras de seus covis, e os passarinhos deixarem em sobressalto os seus abrigos de verdura.
       Somente Baguari, - que cuidara nessa tarde abrevar-se de cauim e de prazer nos braos da gentil Jupira, - retirado no mais recndito antro da floresta, arrancava 
rugidos de amargura e despeito. 
       
CAPTULO II
       
       Em seu lado sudoeste, a provncia de Minas termina em um ngulo agudo, em uma vasta nesga de terra encravada entre as provncias de Gois e de S. Paulo, das 
quais a separam os dois grandes rios Parnaba e Rio Grande, que se vo reunir na ponta do ngulo. Nessas regies, sobre as quais a natureza parece ter entornado 
a flux todo o cofre de seus favores, trinta lguas, pouco mais ou menos acima da confluncia dos dois rios, est situado o Seminrio de Nossa Senhora Me dos Homens, 
fundado h cerca de cinqenta anos, pelos padres da Congregao da Misso de S. Vicente de Paula, em uma vasta e rica fazenda, que lhes deixou em legado um opulento 
fazendeiro daquelas paragens.
       Possui a fazenda matas na prodigiosa uberdade, pingues e magnficas pastagens, por entre os quais um caudaloso ribeiro vai sereno rolando suas guas cor 
de esmeralda sombreadas por duas orlas de frondoso e verde-negro arvoredo, pelo que de certo lhe deram o nome de Rio Verde. Atravessa as mais formosas e risonhas 
Campinas entrecortadas de viosos capes e palmares pitorescos, e vai perder-se no Rio Grande, que passa a cinco ou seis lguas do seminrio, ocultando seu curso 
entre gigantescas e profundas matas.
       Pelas imediaes do seminrio, para logo se foram agregando alguns moradores, e, em torno dele, construindo-se algumas casinhas dispersas pela campina, de 
sorte que o lugar chamado Campo Belo, nome que perfeitamente lhe quadra, tornou-se como uma pequena aldeia.
       Por aqueles sertes vagavam por esse tempo alguns restos das tribos selvagens vindas de Gois e Mato Grosso, j algum tanto familiarizadas com a sociedade 
dos brancos, mas conservando ainda os hbitos selvticos e a independncia da vida errante. Os padres fizeram reiterados esforos para cham-los ao grmio do cristianismo 
e da vida social, doutrin-los, e utilizar seus servios.
       Os seminrios de S. Vicente, porm, parece que no so dotados daquele tino e habilidade, de que dispunham os discpulos de Igncio de Loyola para catequizar 
os indgenas. Por vezes conseguiram reunir alguns bandos; mas nunca que se sujeitavam por muito tempo a um trabalho contnuo e regular.
       Atrados pelo desejo de obterem algumas roupas, ferramentas, armas e enfeites, acudiam de quando em quando ao seminrio; mas no fim de um a dois meses, quando 
se aborreciam do trabalho, entregavam-se a sua natural indolncia e, se apertavam com eles, desapareciam, e internavam-se de novo pelas matas do Rio Grande, continuando 
sua vida nmade e selvagem.
       Em um desses bandos, que se acolhiam s vezes  fazenda de Campo Belo, havia uma caboclinha nova por nome Jurema, no de todo linda, mas um pouco menos feia 
e mais bem feita do que as suas companheiras. Jos Luiz, moo branco e bem disposto, empregado do seminrio, agradou-se sumamente dela, e por tal arte soube catequiz-la, 
que no fim de algum tempo Jurema lhe deu uma linda e viosa filhinha. 
       Sabedores do fato, os padres induziram Jos Luiz a casar-se com a ndia. Batizaram-se ao mesmo tempo a me e a filha, e no dia seguinte o pai e a me receberam-se 
em legtimo matrimnio. Jurema trocou o seu nome selvtico pelo de Ana, e a filha, que a me chamava Jupira, pelo de Maria.
       Os ndios no punham dificuldade alguma em se deixarem batizar, casar e receber todos os mais sacramentos da igreja; mas isso para eles era um ato sem conseqncia. 
No dia seguinte esqueciam seus novos nomes, e os esposos se separavam com a mesma facilidade com que largavam seus vestidos, para tomarem de novo a arasia, e tornavam 
aos matos para serem to bons adoradores de Tup como d'antes.
       Aconteceu, pois, que um belo dia a esposa de Jos Luiz anoiteceu e no amanheceu, desaparecendo com seus irmos em Tup, e levando consigo sua filhinha ainda 
de mama. Jos Luiz ficou sumamente aflito e magoado com o acontecimento; fez imensas diligncias para apanhar ao menos a filha, pois com a me j no contava mais, 
 vista de um tal procedimento.
       Mas todos os seus passos foram perdidos, e depois de um ano de pesquisas e excurses pelas matas, desanimou...
       As florestas so imensas, e aquela gente no tem pouso certo nem por uma semana.
       Eram j passados mais de dois anos quando Jurema, sem mais cerimnia, entrou-lhe pela porta dentro, e se lhe apresentou conduzindo pela mo a pequena Jupira, 
e j com outro caboclinho s costas, acocorado em uma pequena maca de buriti, que trazia presa  testa, como  costume entre as ndias. Apareceu a seu marido sorrindo-se 
tranqila e fresca, como se nada houvesse acontecido, como se se tivessem separado na vspera. Jos Luiz ficou atnito com aquela inesperada visita; maior porm 
foi a sua alegria do que o seu espanto, e deu graas ao cu, que lhe havia restitudo a filha, a qual ele tratou logo de pr em bom recato e segurana, despedindo 
cortesmente a me, que com isso no se mostrou nem de leve magoada, pois segundo as aparncias, j tinha novo esposo no bando dos seus.
       Receoso, Jos Luiz, de que sua filha no fosse de novo levada para o mato por sua me, guardou-a com toda a cautela, confiando-a aos cuidados de uma velha 
parenta que era a sua caseira, e no respirou tranqilo enquanto Jurema, com todo o seu bando, no desapareceram das imediaes de Campo Belo.
       A menina crescia linda, engraada e travessa como uma ariranha. Tinha muita vivacidade e penetrao, mas os instintos selvticos prevaleciam nela, e foi com 
muita dificuldade que seu pai, no fim de sete anos, conseguiu que ela adquirisse alguns costumes de civilizao, andasse vestida, cosesse, lesse e escrevesse alguma 
coisa. Muitas vezes a iam agarrar pelos matos quase nua, trepada como macaco nas mais altas rvores, ou nadando nos profundos remansos do Rio Verde, em risco de 
ser devorada por alguma sucuri. 
       Todavia Jupira era uma interessante menina, e pela singularidade de suas qualidades fsicas e morais era o enlevo de toda aquela pequena povoao.
       Andava de casa em casa, e em todas elas era mui querida e festejada. s vezes tambm penetrava no seminrio, e a fazia o regalo e as delcias dos padres 
e dos estudantes.
       Quando, porm, ali se achava algum bando dos seus parentes da selva, no queria mais sair do meio deles: j lhes conhecia bem a lngua, da qual j balbuciava 
algumas palavras, quando voltara do mato. Por isso, muitas vezes, servia de intrprete entre os ndios e os padres com sumo gosto e contentamento de todos. Somente 
Jos Luiz - e com razo - se afligia muito com isso, e no gostava nada de ver sua filha to afeioada aos seus parentes do mato. Zangava-se, ralhava, castigava, 
, mas era debalde; o pendor que a menina tinha para os seus era irresistvel.
       Jupira j tinha nove para dez anos quando sua me, depois de vaguear largos anos pelos sertes de Gois, Par e Mato Grosso, tornou a aparecer em Campo Belo 
com a horda a que pertencia. Jupira!... exclamou a ndia, apenas ps os olhos em sua filha. Esta tambm imediatamente reconheceu sua me, saltou-lhe ao colo, nunca 
mais quis deix-la. 
       Jos Luiz ficou cheio de gosto e inquietao com o reaparecimento da me de sua filha. Desta vez redobrou de cuidados e precaues. Jupira, sem que ela soubesse, 
no andava sem um sentinela  vista. Era um primo seu, um sobrinho de Jos Luiz, por nome Carlos, e a quem todos chamavam Carlito, pouco mais velho do que ela, rapazinho 
vivo e esperto como um diabrete. No tendo podido parar no seminrio em razo de seu gnio trfego, indcil e insubordinado, freqentava como externo a escola de 
primeiras letras, onde se havia muito mal. Entretanto era excelente para servir de companheiro de brinquedos e ao mesmo tempo de sentinela a sua prima durante o 
dia, porque de noite dormia ela fechada debaixo de chave em companhia da velha caseira de Jos Luiz. 
       Todavia, apesar de todas essas precaues, uma bela manh Jupira no amanheceu em casa. Tinha arranjado modos de trepar pela parede, e como a casa era de 
telha v, isto , sem forro no teto, descobriu um pedao de telhado, saltou fora e voou para as selvas em companhia da me. 
       
       
       
       
CAPTULO III
       
       
       Esta segunda fuga foi muito mais dolorosa ao corao de Jos Luiz do que a primeira. J amava extremosamente sua filha, e tinha a mais terna solicitude por 
aquela interessante menina, cuja criao lhe tinha custado tantos cuidados e desvelos, cujo fruto em um s momento vira esvaecer-se. Era  semelhana de uma flor 
peregrina e rara, em cuja cultura o jardineiro se esmera com o mais desvelado amor. Um dia, porm, quando pela manh vai visitar o tenro boto, que de dia a dia 
anseia por ver desabrochar em flor, acha-a cortada pela raiz por verme daninho, murcha e perdida para sempre.
       Jos Luiz fez altas diligncias para reaver sua filha, mas sempre sem resultados. Bem quisera ele para revindic-la armar uma bandeira e levar a guerra a 
todas as tribos selvagens, como outrora Menelau levou toda a Grcia armada aos muros de Tria para reconquistar a esposa, que um peralta lhe havia seduzido e roubado. 
Mas no lhe era isso possvel, e contentava-se em dirigir splicas ao cu, e fazer promessas a Nossa Senhora Me dos Homens para que lhe restitusse a filha.
       Nas Selvas, Jupira cresceu linda e garbosa como a palmeira das Campinas, mas esquiva e soberba como a ema, a rainha dos chapades. Suas graas fascinaram 
as vistas de todos os jovens bugres, que a seguiam, admirando-a e adorando-a como um manit cado do cu; mas a nenhum deles foi dado colher aquela peregrina flor 
das selvas. Baguari era chefe de uma forte e numerosa horda estranha. Encontrando-se com o bando de Jupira, encantado de sua beleza, abandonou os seus para segui-la.
       Mas Jupira fugia dele como a tmida lontra foge do jacar, ou como a pomba se esconde do gavio. Era a sombra de sua me que vinha arquejante e espantada 
como a caa acossada pelo jaguar, abrigar-se das perseguies do cacique. Temerosa de cair-lhe nas garras, a menina mal ousava arredar alguns passos da companhia 
dos seus.
               Os outros bugres pretendentes aos favores de Jupira, que sabiam das intenes de Baguari, furiosos de raiva e cime, e no ousando opor-se de viva 
fora ao possante cacique, ainda que desejassem devorar-se uns aos outros para fazer face ao inimigo comum e mais forte, e seguiam e vigiavam por toda a parte a 
formosa menina a fim de obstar a que o cacique lograsse seus intentos. Assim, Jupira, sem querer e sem o pensar, tinha sempre ao p de si uma escolta ativa e vigilante 
para a defender contra qualquer tentativa violenta de seu sanhudo amante, como si acontecer entre as brutas alimrias, pouco acima dos quais se achavam aqueles 
selvagens na categoria dos entes. Baguari era valente e terrvel; membrudo e robusto como a anta, gil e veloz como a ona, j tinha sufocado nos braos um dos seus 
rivais, e traspassado o corao a outro com uma flecha, por terem ousado disputar-lhe abertamente a posse da formosa Jupira. Mas era s e detestado por todos, e 
eram muitos contra ele. Por isso tambm da parte dele havia constrangimento e receio. 
       O tronco do ip j se tinha de novo toucado de seus tufados cachos de flores amarelas. Baguari, que conforme a promessa de Jurema, estava esperando com impacincia 
aquela quadra, foi ter com ela, e disse-lhe: - Olha, Jurema; o ip j est florescendo.  tempo de cumprires a promessa que me fizeste, e entregar-me tua filha.
       -Ah! minha me! minha me! d-me antes a uma sucuri, - exclamou Jupira, atracando-se com a me. 
       -Jupira, - disse Jurema para sua filha, - olha que Baguari  forte e te quer muito bem. Vai com ele, minha filha. 
       -Se minha me teima, eu irei lanar-me na lagoa das sucuris, retorquiu a menina com firmeza.
       A lagoa das sucuris era um banhado, que por ali havia, e onde existia enorme quantidade desses formidveis rpteis. Quem nela caa era irremissivelmente devorado 
pelos monstros. Jurema sabia que sua filha era bem capaz de pr em prtica a sua ameaa, e disse ao cacique:
       -Ests ouvindo, Baguari? - ela no te quer ainda.  que ainda no  tempo. Espera ainda, Baguari; ... mais tarde...
       -Cala-te, filha de Anhang! - bradou o ndio, rugindo e batendo o p com fora - no quero mais te escutar, boicininga enganadora... ou hoje ou nunca!...
       Ouvindo os gritos e vendo a atitude ameaadora do cacique, os outros bugres, que estavam de alcatia, aproximaram-se de arco e flecha em punho, murmurando 
palavras de ameaa. Baguari lanou-lhes de revs um furibundo olhar, soltou um rugido de raiva e de despeito, e retirou-se vagarosamente, rosnando como um tigre 
enfurecido. 
       Vendo que nem por bem, nem por violncia lhe era possvel obter a posse da virgem indiana, Baguari, que no desistia de seus intentos sobre ela, recorreu 
s ciladas. 
       Jupira gostava de caar pssaros. Com um pequeno arco e flechas proporcionais s suas foras, ela varava os jas, inhambus, macacos, capoeiras e outras aves 
que abundam naquelas florestas, e abastecia de copiosa caa o rancho de seu pequeno bando. Um dia,  hora do pr-do-sol ela estava sozinha com sua me  beira de 
um capo, embalando-se indolentemente em sua maca de palhas de buriti e abanando o rosto e enxotando as mutucas com o cocar de penas, que havia tirado de sua cabea. 
Seus companheiros vagueavam pelo campo a pouca distncia. Um ja comeou e piar dentro da mata. Jupira saltou lestamente da rede, tomou o arco e flechas, e embrenhou-se 
no capo, sem que sua me, que estava ocupada em esfolar um tamandu, desse por f daquele movimento.
       O ja  uma ave grande e excelente de se comer, mas muito arisca e dificlima de se caar.
       Os ndios e os sertanejos, que com eles aprenderam, empregam uma engenhosa astcia para os atrair e apanhar.  de ordinrio ao pr-do-sol que os jas costumam 
piar, vagueando pelas sombras da mata. O caador esconde-se cuidadosamente em alguma moita junto ao lugar em que os ouve piando e comea tambm a piar, imitando-os 
com toda a perfeio. O ja, acudindo quele chamado, que cuida ser de algum de seus companheiros, vem se aproximando, descobre-se, e ento o caador atira-lhe ou 
flecha-o muito  vontade.
       Jupira, que era habilssima nesse manejo, foi se esconder e comeou a responder ao ja. Mas este, em vez de aproximar-se, ia-se afastando aos poucos, e piando 
cada vez mais longe. Jupira, piando sempre e mudando de esconderijo em esconderijo, o foi acompanhando sem nunca conseguir avista-lo, entranhou-se a uma grande distncia 
e pelo capo adentro. O sol j era entrado e as sombras do crepsculo comeavam a escurecer a floresta; Jupira, desanimada, ia j voltando, quando sentiu pelas costas 
mo de ferro agarrar-lhe o ombro, e uma voz medonha bradou-lhe - Jupira, agora s minha! - Era Baguari, que usara daquela negaa para atrair Jupira e arred-la  
dos seus. Assim, a pobre menina, cuidando ser a caadora, era a caa, que vinha descuidada cair nas mos de seu feroz perseguidor.
               Jupira deu um grito de terror; mas o cacique levou-lhe imediatamente a mo  boca, e nem os companheiros dela poderiam ouvi-la, na distncia em que 
se achavam. Viu que nenhum partido poderia tirar da resistncia, e procurou aplacar o seu feroz agressor.
       -Espera, Baguari! - dizia ela arquejando de susto: - No me faas mal; eu me entrego; ... mas larga-me.
- No; tu queres enganar-me; mas  escusado; desta vez no me escapars.
        - No quero te enganar, no, Baguari. Vamos onde est minha me,... ela me entregar a ti, e eu te juro que no hei de pr dvida nenhuma em ser tua.
        - Por Tup!... nesse lao no caio eu, minha formosa gara do Paran. J agora no sairs mais dos meus braos, quer tu e tua me queiram, quer no queiram.
        - Pois bem, Baguari; sou tua; no te fugirei mais;... mas larga-me,... tu assim me sufocas... ai! 
        Falando assim e debatendo-se, Jupira procurava ganhar tempo a ver se seus companheiros, dando por falta dela vinham em seu socorro, ou a excogitar algum 
ardil para arrancar-se dos braos do seu brutal amante. Melhor porm do que ela esperava, veio o destino, ou o cu, em seu auxlio. Pisada pelo ndio, uma enorme 
jararaca, que dormia em uma moita de capim quase debaixo de seus ps, salta enfurecida, e enrosca-se-lhe nas pernas. O ndio d um grito de horror, sacode vigorosamente 
a perna, e atira longe o medonho rptil, que felizmente no o havia picado, recua em dois pulos, com Jupira nos braos, larga-a no cho e investe de tacape alado 
sobre a cobra, que se ia esgueirando pelo matagal adentro. Jupira no perdeu um s instante; mal se viu solta dos braos do truculento cacique, enquanto este a rijos 
botes de tacape perseguia a cobra, mais veloz e sutil do que uma irara, desapareceu pela mata, e chegou suando e arquejante ao p de sua me.
        - Est morta!... - bradou triunfante o cacique. - Jupira!... Jupira!... onde estas?...
        Mas Jupira j estava longe. 
        
        
        
        
CAPTULO IV
        
        Quando Baguari, perseguindo Jupira, chegou ao lugar em que Jurema se achava, j era noite e os outros bugres j ali reunidos estavam, acendendo seus fogos.
        - Que fizeste a Jupira, que ela me apareceu correndo e chorando, toda assustada? perguntou Jurema a Baguari.
        - No lhe fiz mal algum, Jurema; ela  arisca e medrosa como a saracura do brejo. 
        - Tem medo de ti, porque no sabes anima-la. A pomba foge do carcar, que lhe fisga as unhas, mas gosta do trocs, que a beija e acaricia. 
        - Mas porventura sou eu algum jacar do rio para ela fugir-me assim, e obrigar-me a negace-la como o jaguar que anda  espia da veada nova?...
        - Por essa forma, Baguari, nunca Jupira te querer.
        - No queira, embora, h de ser minha. Para que me deu Tup estes olhos, que enxergam mais do que os do gavio, e estes pulsos, mais fortes do que os do 
canguu?...
        A estas palavras ressoou por entre os outros bugres um murmrio surdo, e alguns rosnaram palavras de indignao e de ameaa. Baguari vibrou sobre eles um 
olhar de fogo e sangue, e voltando-se para Jurema e sua filha:
        - Est bem, - disse; - no quero mais teimar contigo, Jurema. Vou-me embora para os meus. E tu, Jupira, fica-te em paz; no te perseguirei mais. Dou-te seis 
luas para me esperar e ai daquele que ousar tocar-te, e ai de ti, se te entregares a algum!
        De feito eram j passados dois meses, e ningum mais via por aquelas paragens o sanhudo Baguari. Tinha realmente ido reunir-se a seus companheiros, cuja 
residncia favorita era para as bandas de Sant' Ana do Parnaba, prximo  juno dos dois grandes rios. 
        Jupira, pois, podia j passear sozinha e desassombrada, e adormecer tranqila  sombra da figueira silvestre, pelas margens do seu ptrio Paran, ela que 
tinha mais medo do amor de um homem do que das sanhas do canguu, das ciladas da sucuri.
        Em uma sesta ardente ela estava sozinha sentada  sombra, bem junto  margem do rio. Pendurada a um galho se via perto dela uma pequena maca, onde dormia 
um irmozinho seu, que ela embalava cantando, e enxotando com um ramo os marimbondos e mutucas que lhe esvoaavam em torno. Espalhados pela praia, pendurados ou 
encostados pelos troncos viam-se armas, redes, esteiras e mais utenslios indianos, sinal de que a sua horda no devia andar por longe. De feito, Jurema e seus companheiros 
tinham-se entranhado pela floresta  cata de jabuticabas, araticuns, bacoparis e outras frutas silvestres de que abundam aquelas matas, e deixaram ali Jupira tomando 
conta do rancho e vigiando a criana. 
        Entretida com aquele cuidado, Jupira no viu um vulto, que na margem aposta surgiu da mata, e atirando-se ao rio o veio atravessando sereno e sem rudo, 
como um jacar, mal tendo a cabea fora d'gua.
        Ao aproximar-se da barranca, mergulhou, e Jupira s o viu quando, surginfo fora d'gua, saltou na praia perto dela. Soltou um grito de susto, cuidando ser 
algum monstro aqutico, que a vinha devorar; porm seu terror ainda subiu de ponto, quando naquele vulto reconheceu Baguari, que se erguia ao p dela, gotejante, 
gigantesco e hediondo, com os olhos vermelhos e chamejantes como duas brasas. 
        - Jupira, hoje  o dia! - bradou o ndio, lanando-lhe as mos. - Hs de ir comigo ou hei de dar-te a comer aos peixes deste rio. 
        Jupira, tremendo e transida de horror, deixou-se ficar muda e queda, como a cora que sentiu no cangote a garra aguada da sussuarana.
        - Vamos, Jupira!... desta vez eu te juro que no me escapars mais.
        - Sim, vamos, Baguari; - disse Jupira, voltando-se do susto e recobrando sua natural coragem e resoluo. - Devo ser tua; bem vejo que Tup me destinou para 
ti, e que no me   possvel, por mais que faa, escapar ao teu poder.
        - Ah!... enfim!... ainda bem que o conheces. Acompanha-me.
        Falando assim, Baguari a ia arrastando para a mata.
        Presa  barranca estava uma  canoa que aqueles indgenas, que j tinham alguma indstria e possuam alguma ferramenta, haviam fabricado.
        - No! para a no! exclamou Jupira. - Minha gente no pode tardar a voltar, e ai de ns, se nos encontram! matar-nos-o a mim e a ti!... Entremos naquela 
canoa, vamos para a outra banda, e fujamos para longe.
        No pareceu m a Baguari aquela proposta.
        - Seja como quiseres... mas esse curumim?... disse o ndio, apontando para a criana.
        - Tup tomar conta dele - respondeu a menina, apontando para o cu. 
        Entraram na canoa, e Jupira, para mostrar que de bom grado acompanhava o seu roubador, levou para dentro dela seu arco e flechas, e mais utenslios que lhe 
pertenciam. Sua inteno, porm, era precipitar-se no meio do rio, e deixar-se afogar, no caso que no pudesse matar Baguari. Chegados que foram ao meio do rio, 
Jupira debruou-se sobre o bordo da canoa, como para mirar a profundidade das guas. Um forte p de vento, que ento se levantou, arrancou-lhe de cabea e atirou 
no rio o bonito canitar de penas de arara, guarnecido de ouro e pedrarias, que trouxera da casa de seu pai.
        Uma sbita inspirao atravessou o esprito de Jupira.
        - Ah! o meu canitar!... o meu canitar... exclamou a menina, ajuntando as mos, com mostras de grande lstima. - O meu canitar, que eu quero tanto... l se 
vai pela gua abaixo!... ah!... meu Deus... espera, Baguari!... vou ver se posso apanhar.
        Dizendo isto fazia gesto de quem ia lanar-se a nado. 
        - Espera tu a, que eu j te trago o teu canitar.
        Disse e de um salto atirou-se ao rio. Apenas se havia afastado umas quatro ou cinco braas da canoa, Jupira toma o arco, e acocha-lhe uma flecha, que foi 
cravar-se-lhe na espdua. O ndio arrancou um rugido de dor, e afundou-se por um momento; apenas surgiu de novo  tona d'gua, nova flecha voou do arco de Jupira 
e foi cravar-se na outra espdua do ndio. Nenhuma das flechas, porm, havia penetrado muito fundo, e nem lhe tolhiam o movimento dos braos; o ndio enfurecido 
lanou-se sobre a canoa, a qual tambm no sendo governada vinha rapidamente sobre ele, levada pela torrente. Quem o visse ento com aquelas duas hastes emplumadas 
sobre o dorso cuidaria ver um drago alado arrojando-se sobre a canoa para devorar a infeliz menina. Jupira, que o esperava em p com um feroz sorriso de triunfo, 
deixou-o chegar, e quando o ndio enfurecido ia deitar mo ao bordo da pequena igara, descarregou-lhe com toda a fora o remo sobre a cabea e rebentou-lhe o crnio. 
O ndio desapareceu, e foi surgir um pouco abaixo  flor da gua entre uma multido de peixes, que saltitando devoravam o sangue e os miolos que escorriam do crnio 
do desventurado cacique.
        
        
        
        
        
CAPTULO V
        
        O cadver de Baguari foi rolando longos dias  merc da torrente do Paran, servindo de pasto aos peixes, e de banquete e batel a um tempo aos urubus, que 
sobre ele iam boiando rio abaixo, at que enfim foi encalhar em uma praia arenosa, justamente em um lugar onde, ento, achavam-se arranchados os seus companheiros. 
Dir-se-ia que a mo do destino para ali o tangera de propsito, como para clamar vingana. Posto que j meio devorado pelos peixes, foi logo reconhecido pelos seus. 
Baguari, ao partir, lhes havia prometido que em menos de trs luas havia de voltar com Jupira; que, se at ento no aparecesse,  porque o teriam morto, e nesse 
caso deixava a cargo deles a sua vingana. De feito voltou, mas sem vida e sem Jupira; e apenas trazendo ainda no dorso as flechas que ela lhe havia cravado, como 
em vida havia trazido cravadas no peito as setas, com que os lindos olhos de Jupira lhe haviam atravessado o corao.
        Apenas os ndios o reconheceram, soltaram grandes alaridos de d, recolheram o cadver em uma grande maca, teceram um torno dele danas fnebres e deram-lhe 
sepultura  sombra de uma velha sucupira.
        Feitas as honras fnebres ao seu valente chefe, aqueles indgenas trataram logo de marchar pela margem do Rio Grande acima, a fim de lhe vingarem a morte. 
A horda de Baguari era muito mais numerosa e forte do que o bando desorganizado em que vivia Jupira, o qual constava de relquias de hordas devastadas pelos brancos. 
De longo tempo em contato com os brancos, tinham perdido os hbitos belicosos, e grande parte de sua coragem e fereza selvtica. Em breve chegou-lhes aos ouvidos 
a notcia de que a gente de Baguari marchava contra eles, a fim de vingar a morte de seu chefe. Fracos e pusilnimes, aqueles restos da famlia caiap no podiam 
resistir aos robustos e aguerridos Guaianases, que sobre eles vinham cheios de clera e sede de vingana, e seriam infalivelmente exterminados.
        Jupira no havia ocultado aos seus a morte do sanhudo Baguari; pelo contrrio, risonha e triunfante lhes narrou com toda a franqueza e ingenuidade a astcia 
de que se valera para livrar-se para sempre daquele feroz pretendente. Contando como certa a sua runa e possudos de terror, seus covardes companheiros resolveram 
mandar um emissrio ao encontro dos inimigos para dar-lhes satisfaes e dizer-lhes que nenhuma parte tinham tido na morte de seu chefe, que fora Jupira a nica 
autora daquele atentado, e que para aplacar sua justa clera estavam prontos a entregar-lhes viva ou morta a criminosa. Este teria sido o destino da linda caboclinha 
se um de seus pretendentes, esperando assim fazer jus  gratido e ao amor da rapariga, no a tivesse avisado da brbara e aleivosa inteno dos seus. 
        Jupira e sua me fugiram para Campo Belo e acolheram-se  fazenda dos padres, resolvidas a nunca mais voltarem para a companhia de seus prfidos companheiros.
        Era j a quarta vez que Jupira, desde que nascera, trocava a selva pela casa paterna, e a casa pela selva alternativamente. Seu pai a recebeu com os braos 
abertos, e sentiu grande alegria em tornar a achar a filha, na qual j h muito havia perdido as esperanas de tornar a pr os olhos em dias de sua vida. Recolheu-a 
para casa e, extasiado de sua formosura e do vioso desenvolvimento de suas esbeltas formas, deu-lhe lindos vestidos e enfeites, que ela de bom grado trocou pelo 
curto saiote e pelo canitar de que usava nas selvas, e empregou todos os meios, todas as carcias e sedues possveis para fixa-la de uma vez para sempre no seio 
da sociedade civilizada.
        Se com os trajos selvticos Jupira, por seu garbo e gentileza, fazia lembrar uma Moema ou uma Lindia, vestida  maneira da gente civilizada era uma rapariga 
sedutora, capaz de alvoroar o corao e inflamar o sangue de um anacoreta. Era alta e muito bem feita. Os cabelos negros, corredios e luzentes como asa do anu, 
eram to bastos e compridos, que a linda cabocla ainda pouco adestrada na arte de se toucar, via-se em apuros para acomoda-los sobre sua pequena cabea, e muitas 
vezes, rebelando-se contra as fitas e prises, as quebravam e tombando-lhe pelo colo se derramavam em liberdade pelos ndios e morenos ombros. Os olhos um pouco 
levantados nos cantos exteriores eram bem rasgados, e dardejavam das pupilas negras lampejos que denunciavam o ardor de seu temperamento e uma alma enrgica e resoluta. 
Os lbios rubros, carnosos e midos eram como dois favos trgidos de mel da mais inefvel voluptuosidade, e quando se fendiam em um sorriso mostravam duas linhas 
de alvssimos dentes um pouco aguados como o dos carnvoros, e seu sorriso tinha singular e indefinvel expresso de ingenuidade e de selvtica fereza. A todos 
esses encantos, a todas essas linhas e voluptuosas formas servia como de brilhante invlucro a tez de uma cor original, um rosto acaboclado, como que dourado pelos 
raios do sol, que dava peregrino relevo  sua linda figura.
        Quando ia  missa aos domingos, na pequena capela do seminrio, todos os olhos se voltavam para a interessante cabocla, todos a contemplavam sorrindo com 
o mais curioso interesse e complacncia. At mesmo os seus gestos e ademanes um pouco estouvados, o ar desajeitado e constrangido, com que vergava as suas novas 
vestiduras, tudo nela parecia galante e encantador.
        Se bem que na pia batismal tivesse recebido o nome de Maria, os moradores de Campo Belo conservavam-lhe sempre o seu nome indgena de Jupira, por acharem-no 
mais galante e entenderem que lhe assentava melhor.
         escusado dizer que no faltaram apaixonados quela to sedutora quo peregrina formosura. Mas como j corria pela aldeia a histria da morte do cacique, 
que s mos da frgil menina pagara com a vida a sua audcia, os amantes de Jupira tinham-lhe certo respeito, e no a requestavam seno com certa timidez e reserva, 
se bem que nenhum deles tivesse inteno de lanar-lhe mos violentas. Mas aquele episdio de sua vida, rodeando-a de um terrvel prestgio, servia-lhe de salvaguarda 
e de broquel contra qualquer desacato ao seu pudor.
        Entre os amantes de Jupira, o mais assduo, ardente e apaixonado, e talvez o mais guapo, o mais rico e considerado de todos, era um mancebo por nome Quirino, 
filho de um abastado fazendeiro daqueles arredores. Era um rapago alto e bem disposto, de barba cerrada e negra, e pupila ardente e viva, em que transluzia todo 
o fogo de sua alma capaz de todos os extremos.
        Quirino amava, no como se ama na cidade, onde se namora muito e ama-se quase nada, mas como se ama no serto, em meio da solido, debaixo daqueles cus 
ardentes, no seio daquela natureza esplndida; amava com paixo, com fogo. Quirino freqentava assiduamente a casa de Jos Luiz, onde cercava a rapariga de mil atenes, 
obsquios e adoraes, sem que ela nem de leve se mostrasse sensvel a tantas demonstraes de afeto, por mais que ele empregasse todos os meios ao seu alcance para 
ganhar-lhe o corao. A princpio nem lhe passava pelo pensamento casar-se com uma pobre cabocla, filha de uma gentia e criada nos matos. 
        Porm, quanto maior era a insensibilidade e esquivana de Jupira, mais ardente se tornava a paixo do rapaz , e mais se lhe atiava o desejo de possu-la; 
estava disposto a empregar todos os meios, a fazer todos os sacrifcios para esse fim.
        Como Jupira tratava todos os outros amantes com a mesma indiferena e talvez pior do que a ele, Quirino entendeu que toda aquela insensvel esquivana no 
era seno resultado dos poucos anos e da sevtica timidez e acanhamento da rapariga, e esperava que de modo nenhum ela recusasse uma proposta de casamento com um 
moo como ele era, bem apessoado, rico e de boa famlia. Depois de ter lutado em vo por vencer a obstinada indiferena da menina, era aquele o seu ltimo recurso. 
Um vez casado, mais fcil lhe seria catequiz-la e ganhar-lhe a vontade e o corao.
        Demais, j esse casamento no lhe parecia to ridculo e desigual, pois Jupira era filha legtima de Jos Luiz; e Jos Luiz, empregado do seminrio, tinha 
adquirido alguns bens de fortuna, e era homem que gozava de respeito e considerao no lugar. Quirino, pois, no hesitou por mais um instante, e foi pedir-lhe a 
mo de sua filha.
        Jos Luiz acolheu com infinita satisfao a proposta do mancebo; pois no podia desejar melhor partido nem maior ventura para sua filha, e foi logo comunicar-lhe 
a pretenso do moo.
        Ela, porm, com grande pasmo e desgosto de Jos Luiz, recusou-se obstinadamente  semelhante casamento. Foi debalde que Jos Luiz, por muitos dias, lutou 
com ela, empregando exortaes, conselhos, splicas e at por fim repreenses e ameaas para induzi-la a aceitar a mo de Quirino.
        - Meu pai, - disse-lhe ela afinal, com um sorriso, que fez se arrepiarem as carnes a Jos Luiz - ningum ser capaz de dar-me um marido contra a vontade; 
eu j sei como a gente se livra deles, quando nos querem levar  fora!
        Jos Luiz, assombrado com aquela resposta, recolheu-se ao silncio, e desistiu do seu propsito. 
        
        
        
        
CAPTULOVI
        
        Quirino enganava-se; a indiferena de Jupira por ele no era simples efeito da timidez selvtica, nem da inocncia prpria dos verdes anos da rapariga; tinha 
outro motivo mais poderoso, o qual Quirino absolutamente ignorava. Para aquele temperamento de fogo, para aquela alma inflamvel, aos quinze anos o amor era uma 
necessidade imperiosa; Jupira comeava a amar outro. 
        O leitor h de se lembrar de Carlito, sobrinho de Jos Luiz, aquele menino travesso que ele pusera como sentinela a sua filha durante a sua anterior estada 
na casa paterna.
        Carlito, que agora apenas entrava na puberdade, se bem que no fosse estudante, tinha morada no seminrio, mas ia com muita freqncia a casa do seu tio, 
onde tinha entrada franca por todos os cantos, entrando e saindo  hora que lhe aprazia. Era impossvel que em to contnuo contacto com sua formosa prima no ficasse 
gostando dela.
        Carlito, por sua parte, era um adolescente lesto, bem disposto, e de encantadora presena. Ainda mais uma circunstncia era prpria para torn-lo agradvel 
aos olhos de Jupira; era gil e travesso como ela; tinha artelhos de ao, e corria e soltava como um gamo; trepava a uma rvore como um sagi, e nadava como uma 
lontra. 
        Foi vagueando e brincando  sombra dos laranjais em flor, ao murmrio da fonte do quintal, que aquelas duas almas, virgens como duas pombas novas que comeam 
a bater as asas fora do ninho, arrulharam em segredo seus primeiros amores.
        Por alguns meses assim se lhes passaram rapidamente os dias no enlevo daquelas primeiras emoes de um amor virginal, naqueles eflvios d'alma to puros 
e deliciosos como exalaes balsmicas, que a brisa da madrugada levanta dentre os rosais orvalhados. Carlito amava como menino que era. Era mais a febre dos desejos 
sensuais, que lhe agitava o sangue juvenil  vista dos sedutores encantos de sua prima, do que o corao que acordava suspirando ao sopro de uma paixo. O amor de 
Jupira era amor de cabocla, ardente como o sol do deserto que lhe dourava a tez, profundo como os abismos do rio onde banhava os membros infantis. Aquela que matara 
para se desfazer do amante importuno que odiava era tambm capaz de morrer de amor por aquele a quem adorasse, ou apunhalar o amante que a atraioasse. Carlito, 
simples criana, no podia adivinhar quanta paixo havia no fundo da alma daquela menina na aparncia to indolente, to frvola e descuidosa.
        Apesar ds esforos de seu pai, Jupira nunca pudera perder de todo os hbitos de selvtica liberdade em que fora criada. Saa sozinha de casa e vagava por 
campos e matas, caando ou pescando, como se fosse um rapaz, e muitas vezes, nos dias calmosos, ia sozinha banhar-se nas guas do seu querido Rio Verde, no mesmo 
stio em que  na infncia se exercitara a fender-lhe as ondas, em um remanso lmpido e profundo sobre o qual se debruavam rvores copadas, cobrindo-o de sombra 
e fresquido deliciosa. Esses passeios, que seriam muito inquietadores e dariam muito o que falar em outra qualquer rapariga, em Jupira ningum os estranhava.
                Ela gozava da reputao de ter em averso os homens, principalmente aqueles que a amavam. Essa fama, baseada no seu gnio arisco e um tanto crespo, 
na histria do cacique que havia matado, e no uso de uma pequena faca guarnecida de prata que sempre trazia no seio, serviam-lhe de salvaguarda, e ningum ousava 
atravessar-se em seu caminho quando saa s suas excurses, e, se acaso algum rapaz a encontrava pelos rinces solitrios ou pelas veredas escusas da mata, tirava-lhe 
respeitosamente o chapu, e seguia seu caminho.
        O prprio Jos Luiz no mostrava inquietar-se muito com aqueles passeios de sua filha. - Quem sabe to bem guardar-se, - costumava ele dizer, - e fazer-se 
respeitar por tanto tempo no meio das matas e entre os bugres bravios, que risco pode correr aqui no meio de gente crist e civilizada?
        S havia uma pessoa que no lhe tinha medo; era Carlito. Mas esse mesmo ainda no tinha ousado ir perturb-la em seus giros solitrios. 
        Todavia Carlito sentia um vivssimo desejo, que no podia refrear, e era de ir espiar sua linda prima, quando ela ia banhar-se nas guas do Rio Verde. Nada 
lhe era mais fcil do que gozar, sem que Jupira o pressentisse, daquele espetculo, com o qual esperava que gozaria todas as delcias do cu e que nada mais lhe 
restaria a desejar sobre a terra.
        Quando a viu, pois, dirigir-se para os lados do rio, o qual corria como a um quarto de lgua de distncia, deu uma grande volta, passou para o outro lado 
do rio, e foi cuidadosamente esconder-se em uma moita, donde a esteve espreitando muito a seu sabor. Da por diante, todas as vezes que Jupira ia ao seu costumado 
banho, tinha sem o saber um espectador invisvel, que a espreitava e cevava olhos vidos e ardentes na contemplao de seus mais ocultos encantos.
        Um dia, porm, Carlito, petulante e lascivo como um stiro, no pode mais se conter. 
        - Vou aparecer-lhe, d no que der; - murmurou consigo o rapaz. - Que mal me poder fazer uma fraca rapariga? tenho boas pernas e braos e sei nadar e correr... 
e tambm se ela me matar, terei muito gosto em receber a morte das mos dela.
        Jupira brincava descuidada no rio, ora boiando serena, ou resvalando  flor d'gua em todas as posies, ora dando pulos e mergulhando como a lontra, ora 
espanejando-se e fazendo saltar uma chuva de aljfares sobre sua cabea, como a marreca silvestre a bater as asas lavando a luzidia plumagem. Eis seno quando ouve 
um barulho como de um corpo que caiu de golpe na gua, e sumiu-se no fundo. Olhou assustada em roda de si, arredando dos olhos os cabelos ensopados, mas nada viu.
        - No pode ser seno alguma ariranha, - pensou Jupira. Dessa no tenho eu medo. Jacar aqui no h, que eu saiba.
        Pensando assim, a moa nadava rapidamente para a margem oposta, que era a que lhe estava mais prxima. Qual porm no foi seu espanto, quando viu surgir 
diante de si a cabea do travesso e petulante Carlito, soltando-lhe  cara uma estridente gargalhada. A cabocla deu um grito, sumiu-se de mergulho, e arrepiando 
carreira foi reaparecer no meio do rio, nadando rapidamente para a outra margem, onde tinha seus vestidos.
        - Sossegue; no tenha susto, Jupira! - gritou-lhe Carlito. - Eu j me vou embora.
        Jupira voltou o rosto, e com um gesto entre irado e risonho, que tanto se podia tomar por uma ameaa como por um convite, continuou a nadar. Carlito, que 
era estouvado e audacioso, atirou-se a nado em seguimento dela. Mas antes que pudesse alcan-la, j ela tinha saltado  praia, e agarrando suas roupas, no havendo 
tempo de vesti-las, nelas embrulhou-se s pressas, e correu a embrenhar-se no mato, soltando uns clamores, que mal se podia saber se eram gritos de terror ou risadas 
de prazer.
        Carlito seguiu-a de perto, e um momento depois sumia-se tambm pelas brenhas, atrs dela.
        Os mistrios que a cpula frondente do bosque amparou com discreta sombra nos momentos que se seguiram ningum os sabe.  certo que uma nuvem carregada tapou 
ento a face do sol, um tufo vergou o tope dos arvoredos com pesaroso sussurro, e uma sombra sinistra toldou o lveo e lmpido das guas e...  no adito das brenhas 
ressoaram murmrios intercadentes, beijos e suspiros abafados. 
CAPTULO VII
        
        
        Imaginem os leitores, que eu no tentarei descrever, como rpidos e deliciosos corriam os dias aos dois jovens amantes, fruindo em segredo seus furtivos 
amores  sombra das florestas virgens, ao murmrio dos crregos do deserto. Vnus e Adnis vagueando pelos vergis da Idlia, Diana e Endimio pelas selvas da Tesslia 
no gozaram momentos mais venturosos do que os nossos dois jovens sertanejos  sombra das florestas americanas.
        Mas essa bem-aventurana no devia durar muito tempo, como toda aquela que provm de uma fonte impura e viciada. As portas daquele paraso de delcias deviam 
ser-lhes trancadas, como foram aos primeiros pais da humanidade, que morderam o fruto vedado por expressa determinao da divindade.
        Carlito era leviano e volvel como criana que era. Depois de se ter longamente embriagado de volpia, nos braos amorosos da feiticeira cabocla, comeou 
a sentir cansao, a enfastiar-se, como o conviva repleto depois de uma longa noite de orgia. Pouco a pouco, e sem o sentir, ia escasseando suas carcias, e j no 
era to assduo e extremoso ao p de sua amante. Jupira, pelo contrrio, cada vez o amava com mais ardor, e seria capaz de passar a eternidade nos braos dele, sem 
a menor quebra na exaltao de seus afetos. Doa-lhe cruelmente no ntimo d'alma aquele resfriamento da paixo do moo; mas Jupira no sabia queixar-se, nem chorar.
        Quantas vezes ia ela ao aprazvel remanso do Rio Verde, onde costumava banhar-se, stio favorito de suas furtivas entrevistas, e ali ficava largo tempo sentada 
com a mo na face, a olhar para o fundo lmpido do rio, a esperar em vo pelo remisso e frouxo amante que no vinha!
        Uma tristeza mortal lhe pesava sobre o corao, e cansada de esperar, voltava para casa com a fronte baixa e a passos vagarosos.
        - Que tens, Jupira?... o que ests cismando assim to triste?... disse-lhe Carlito um dia em que a encontrou naquela triste postura, pensativa,  beira do 
rio.
        - Ah! Carlito! Carlito!... por que razo no me queres mais bem?...
        A rola viva no saberia gemer com mais tristeza do que Jupira suspirou aquela magoada queixa.
        Carlito, comovido, caiu em si, e sentiu acudirem-lhe lgrimas aos olhos.
        - Eu no te querer mais, meu bem? quem te disse isso?...
        - Quem me disse!?... ainda me perguntas?... estas rvores, este rio, este cu que nos cobre, tudo est vendo que no sou mais querida...
        Carlito, no sabendo o que responder-lhe, abraou-a, e procurou abafar-lhe a voz com beijos.
        - Deixa-me, Carlito!; Jupira j no  mais tua, - murmurou ela, esquivando-se aos beijos de Carlito.
        Os olhos de Jupira desataram uma torrente de lgrimas. Era a primeira vez que chorava em dias de sua vida, desde que deixara de ser criana.
        As lgrimas que borbotavam ardentes e copiosas dos olhos de Jupira escaldavam as faces de Carlito, mas bem depressa se estancaram, e os olhos da cabocla 
reluziram secos e cintilantes como os da jararaca enfurecida; passou pelos lbios ressequidos a lngua fina e rubra, soltou um sorriso convulso, amargo, indefinvel, 
e disse:
        - Quando no me quiseres mais bem, me fala; ouviste, Carlito?...
        - Quando  que hei de deixar de te querer bem?... Jupira, por quem s, no me fales assim.
        - Como no hei de falar?... torno a repetir, quando no me quiseres mais, fala, Carlito.
        - Ento podes ficar certa de que nunca te hei de dizer nada. 
        - Sim?... Por qu?
        - Porque nunca hei de deixar de te querer.
        - Isso  de boca... teu corao diz o contrrio... bem estou vendo..., no ser necessrio que me digas nada... mas quero ver ainda mais, e depois...
        - E depois o que, Jupira?
        - Ests vendo esta faca? disse a cabocla, tirando do seio e desembainhando a lmina luzente e afiada de sua pequena faca.
        - Jupira!...
        - No ests vendo? - continuou Jupira com um tom de glacial indiferena, que fez estremecer o rapaz. - Acho que a folha desta faca  bastante comprida para 
chegar-me ao corao, e ao teu tambm, Carlito.
        Carlito, que estava sentado ao p dela, ps-se em p de um salto.
        - O que  isso? exclamou aterrado: o que me dizes, menina?...
        - No te asssustes, meu Carlito, - disse a cabocla com um sorriso de inexplicvel expresso, e tornando a meter no seio a faca. - Cuidas j que quero matar-te?... 
no sou to m como isso... Tu  que queres matar-me com tuas ingratides.
        - Mas quantas vezes queres que eu jure que nunca, nunca te deixarei?...
        - Tens razo... perdoa-me... eu sou uma doida... Vem, Carlito; vem sentar-te outra vez ao p de mim...
        O beijo da reconciliao soou entre suspiros. Os dois amantes enlaaram nos braos um do outro, e alguns momentos depois se retiraram , por lados diversos; 
Jupira melanclica e abatida, Carlito aterrado e apreensivo.
        Jupira ainda no conhecia toda a extenso do seu infortnio; no sabia a que ponto chegava a ingratido e aleivosia de seu volvel e leviano amante. Carlito 
tinha travado um novo relacionamento, que o ia fazendo esquecer sua encantadora prima. Uma formosa menina loura e branca como uma aucena, filha de uma pobre mulher 
que vivia de lavar a roupa do seminrio, tinha-lhe cativado... no o corao, porque esse era leve e livre como o vento; tinha-lhe cativado os olhos. Roslia era 
uma criana de treze para quatorze anos, uma flor quase em boto. Carlito tornou-se seu assduo adorador, e com tal habilidade soube se haver, que em breve tempo 
tinha conquistado o corao da menina. Tendo sorvido a fartar o aroma ativo e inebriante da magnlia das florestas, queria aspirar tambm o delicado perfume do lrio 
dos jardins. Era um formidvel conquistador, que se estava preparando na pessoa do pequeno sertanejo, um D. Juan dos sertes.
        No pode ficar aculta por muito tempo a Jupira a nova afeio e a deslealdade de seu primo. A pequena povoao de Campo Belo, se povoao se podia chamar, 
composta de alguns agregados, que viviam na dependncia do seminrio, constava apenas de um muito limitado nmero de casinhas, dispersas aqui e acol, pelo suave 
e descampado lanante de uma colina, ao p da qual corria um pequeno crrego. Da casa de Jupira, portanto, se avistava perfeitamente a de Roslia, onde ela viu por 
diversas vezes entrar e sair o seu amante. O zelo entrou-lhe no corao como uma lava incandescente e devastadora. O abatimento e a tristeza em que vivia converteram-se 
em raiva e desesperao. Naquela mulher, que amava tanto e com todas as foras de uma alma ardente e impetuosa, o cime devia produzir terrveis exploses.
        Mais por medo que lhe ia tomando e por dissimular sua inconstncia, do que por satisfazer a um desejo do corao, Calito no deixava de procurar sua prima. 
Carlito ficou assustado  vista dos lampejos torvos e sinistros que viu luzirem nos olhos de Jupira, num dia em que a foi visitar em sua casa; pareciam relmpagos 
que se desprendiam do seio de uma nuvem negra e tempestuosa. A cada momento cuidava ver luzir-lhe na mo o terrvel punhal que lhe havia mostrado  beira do Rio 
Verde.
        - Que tens, Carlito, que ests assim com os olhos espantados? - disse a cabocla com um sorriso de mofa e de desdm. - Ainda ests com medo de mim?...
        - Eu, com medo de ti?!... mas pareces que ests zangada comigo?...
        - Se estou!... Carlito!... no zombes comigo assim, que me matas... ou eu te mato...
        - Mas o que  isso ento?... que mal te fiz eu, Jupira?...
        - Olhem o inocente!... o que  que vais fazer tantas vezes em casa da Genoveva?...
        - Ah!...  s isso?... costumo ir l sempre, isso no  de agora.
        - Mentira!... nunca te vi l ir.
        - Eu mentir?!... para que, Jupira!... disse Carlito em tom de desdm.
        - Para que?!... Ento, se gostasses de Roslia, no me enganavas?...
        - Ora, deixa-te dessas idias, menina; - disse Carlito em tom de gracejo, querendo meter  bulha o negcio, para disfarar a perturbao e o embarao em 
que se achava. A Roslia  uma boa menina, com quem estou acostumado a brincar desde criana, e a me dela me quer muito bem. Vou l patuscar com elas e tomar caf 
com biscoitos, que a tia Genoveva faz muito bem feitos.
        - Caf com biscoitos! e por que no o vens tomar aqui, como costumavas?...
        - Ora! replicou o rapaz, esforando-se ainda por gracejar. Os biscoitos da Roslia... digo, da tia Genoveva so to doces...
        - Carlito! bradou a rapariga, levantando-se de um salto do tamborete em que estava sentada, e com os olhos faiscantes. - Carlito, tu zombas de mim?
        O rapaz recuou aterrado; mas depois sentiu que era vergonha ter medo de uma mulher.
        - Que tens hoje que ests bravinha, caboclinha do meu corao?... disse ele, procurando ainda zombetear.
        Jupira , enfurecida como a boicininga que foi pisada, agarra-lhe num brao, morde-o e enterra-lhe os agudos dentes com toda a fora, at esguichar sangue. 
Carlito deu um grito horrvel, e saiu correndo porta afora.
        - Arre!... que dor! que dentes, meu Deus do cu!... ia murmurando o rapaz, e saltaram-lhe dos olhos lgrimas de dor.
        De feito, para um primeiro arrufo, uma dentada daquelas no era m estria, e fazia pressagiar para o segundo um brao quebrado, e para o terceiro uma punhalada. 
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
CAPTULO VIII
        
        
        Jupira, em sua clera, era bela e sublime, mas bela e sublime para inspirar um artista, e no para despertar o ardor e ameigar o corao do amante, que comea 
a arrefecer-se. Sua palidez era como a do mrmore encardido; os olhos fuzilavam revrberos cor de sangue; a boca espumava, e os lbios e as narinas lhe tremiam convulsivos. 
Reinava em seu todo um imperioso, feroz, que fazia medo.
         indiferena e enfado que Carlito comeava e sentir por Jupira vinha agora juntar-se tambm o medo, para mais  arredio e esquivo torn-lo. Todavia esse 
mesmo medo fazia com que ele a procurasse mais vezes do que desejava, mas com toda a precauo e reserva, temendo mais alguma exploso de seu furioso cime, e tratasse 
da em diante de ocultar o mais possvel suas entrevistas com Roslia.
        Qurino tinha-se retirado para a fazenda de seu pai, triste, acabrunhado, porm ainda no de todo desanimado. A repulsa de Jupira ainda mais lhe avivara a 
chama que o devorava. Aquela boca feiticeira da cabocla, que prometia um paraso de volpias, os contornos daqueles ombros, daquele talhe, to bem boleados; aqueles 
olhos negros, cujo brilho profundo era um pouco velado por plpebras languidamente descadas, aqueles seios redondos, que lhe arfavam sob a camisa como duas rolinhas 
arquejantes arrulando de amor em seu ninho; tudo isso a todo momento se lhe estava pintando na imaginao com as mais sedutoras e vivas cores, escaldando-lhe o corao 
e ferver-lhe o sangue, em frenticos anelos de volpia e de amor. No pode suportar a ausncia por muito tempo, e voltou a Campo Belo decidido a envidar os ltimos 
esforos, a tentar o ltimo sacrifcio para alcanar o objeto de seus ardentes desejos. 
        Jupira desta vez acolheu Quirino com mais brandura, e ouviu suas queixas sem se enfadar; ou porque j sabedora de quanto  doloroso o dissabor que provm 
de um amor mal correspondido, se compadecesse do mancebo; ou porque quisesse punir Carlito com pena de talio, correspondendo ou fingindo corresponder ao amor de 
Quirino; ou talvez porque, no estado de angstia e perturbao em que se achava, gostasse que algum lhe falasse e fizesse diverso s nsias de seu corao. Quirino 
criou alma nova e encheu-se de esperanas.
        - Bem dizia eu! - pensava ele consigo. - Era uma criana arisca e medrosa e nada mais; mas isso no podia durar sempre... j vai chegando  fala; no tardar 
muito a cair-me nos braos.
        Jupira j no podia duvidar da deslealdade de Carlito. Todavia ainda algumas dvidas lhe pairavam por vezes no esprito; era uma ligeira sombra de esperana 
que a triste afagava em seu corao; desejava convencer-se por seus prprios olhos, queria uma prova bem positiva da aleivosia de Carlito. Se, em seus amores, era 
livre como a brisa do deserto, considerao nenhuma a podia tolher nos violentos acessos de seu feroz cime. Como a ona esfaimada rodeia e espia o ndio e tenro 
veado, que descuidado vagueia por bosques e campinas, at lanar-lhe as garras, assim Jupira espiava com olhar cioso todos os passos de seu volvel amante, acompanhava-o 
sem ser vista, conhecia-lhe o rasto, e em seu instinto selvtico quase que o farejava.
        Carlito bem o pressentia, e por mais desvios que procurasse, por mais que tentasse ocultar seus passos, no podia escapar s vistas penetrantes, ao instinto 
adivinhador de sua ciosa amante. Esta espionagem o fatigava e aborrecia, dando lugar a queixas e arrufos quotidianos, e quando se achavam juntos, em vez de se afagarem 
e beijarem-se como outrora, no faziam seno brigarem, arranharem-se e morderem-se como dois gatos do mato. 
        Esse constrangimento em que o temvel cime de Jupira colocava o pobre rapaz, ainda mais lhe atiava o desejo de estar com sua alva e meiga. Roslia. Posto 
que sua afeio pela cabocla estivesse quase de todo extinta, no sei por que ela exercia sobre seu esprito um poderoso e terrvel ascendente, e ele, ainda que 
com medo e repugnncia mesmo, vinha sempre rojar-se aos ps dela. Dir-se-ia que ela tinha o poder de fascinar como a cobra.
        J havia quatro ou cinco dias que Carlito no fazia uma visita a casa de Genoveva e no via Roslia, com medo de Jupira, que o espreitava l de sua janelinha, 
ou lhe seguia a pista sutil e sorrateira como a jaguatirica. Por fim no pode mais ter-se, e rebelando-se resolutamente contra aquele aperreamento em que vivia, 
encaminhou-se franca e impavidamente para a casa de Roslia.
        - No faltava mais nada! ia ele rosnando pelo caminho. - Eu ter medo daquela caboclinha, como se fosse minha me ou minha senhora moa!... nada! quer tomar-me 
 sua conta!... est enganada; - nem to bobo sou eu, que me deixe alinhavar como o cacique que ela matou... no me mete cucas... porventura ela  minha mulher para 
me proibir que eu esteja  com a coitadinha da Roslia! ao menos ela no anda de faca e nem tem dentes de ona para morder a gente. Hei de ir v-la, quer Jupira queira, 
quer no. Se quiser ver, veja; se no quiser, no me ande espiando.
        Fazendo estas reflexes, Carlito entrava em casa de Roslia muito ancho e senhor de si. Jupira o viu; sem mais demora meteu no seio a sua faquinha prateada 
e, com os olhos em chama e batendo os dentes como o javardo em furor saiu e correu a casa de Genoveva. Era esta um pequeno rancho, cuja frente constava unicamente 
de uma sala com uma porta e uma janelinha. Nesta sala, sentados em um banco, se achavam Carlito e Roslia, enquanto a me descuidada lavava roupa na fonte do quintal. 
Jupira chegou sutilmente e sustendo a respirao, para no ser pressentida, avizinhou-se  janela e olhou para dentro. Enlaados em um delicioso abrao, os dois 
amantes beijavam-se em um beijo sem fim, e tal era o seu enlevo que no deram f da chegada de Jupira. Esta mal deu com os olhos naquele interessante espetculo 
levou subitamente a mo ao corao, como se o sentisse atravessado por uma facada, abafou um grito, e ficou por um momento hirta, plida, imvel. Depois levou a 
mo ao seio e apalpou a faca, mas hesitou e abanando a cabea:
        - No! no! - murmurou; - ainda no!... mais tarde. 
        E deitou a correr para casa. L foi dar desabafo  violncia da dor e da raiva que a torturavam, e os mais atrozes planos de vingana lhe tumultuavam no 
esprito. Ter-lhe-ia sido fcil mat-los a ambos, mas isso no a satisfazia. Queria fazer Carlito sofrer muito e por muito tempo dores horrorosas do corpo e da alma, 
insult-lo, esbofete-lo, cuspir-lhe no rosto, antes que morresse, e depois apunhalar-se sobre o seu cadver. Entregue a um turbilho de idias, que se atropelavam 
em seu esprito, indecisa, arquejante, louca, ora percorria a casa a passos precipitados, ora se debruava sobre o leito, arrancando soluos convulsos e chorando 
lgrimas de sangue.
        Nesta terrvel agitao a veio achar Quirino, que entrava pela porta adentro. Ao v-la com as feies transtornadas, os olhos macerados e injetados de sangue, 
os seios ofegantes, o olhar torvo e desvairado, Quirino recuou de espanto.
        - Meu Deus! - exclamou ele, - o que lhe ter acontecido, que a vejo to alterada!
        - Ah! o senhor est a, moo...
        - Desculpe-me, se est incomodada, eu  vou-me embora.
        - Incomodada!... no... no estou; mas... estou com uma raiva... disse a cabocla encrespando os punhos e trincando os dentes.
        - Raiva?!... de quem?... ser de mim, meu Deus!...
        Jupira no sabia ocultar, nem disfarar os tempestuosos transportes de sua alma ardente; sentia mesmo necessidade de desabafar a sua clera, e foi dizendo 
tudo, sem rebuo nem prembulos.
        - Do senhor?! no; - replicou a cabocla; -  de um atrevido, de um malvado que me desfeiteou...
        - Quem foi esse atrevido?... diga, diga j, que quero ir castig-lo neste instante...
        A cabocla fitou em Quirino um olhar firme e penetrante, como quem queira devassar-lhe o fundo da alma, e perguntou-lhe:
        - Moo!... o senhor me quer bem, mesmo como tantas vezes me tem dito?
        - Ainda pergunta?!... no  possvel querer-se mais bem do que eu lhe quero.
        - Pois bem!  chegada a ocasio de mostrar, que  deveras que me quer bem.
        - Sim, formosa Jupira?... quer dar-me esse gosto?... o que quer que eu faa?... fale... aqui estou s suas ordens como o mais humilde de seus escravos!... 
disse Quirino, pondo-se de joelhos nos ps da cabocla. 
        - Ento est pronto a fazer o que eu mandar?...
        - Pronto! pronto sempre, linda Jupira; no h impossvel a que no me arroje por seu amor.
        - Jura?
        - Juro.
        - Pois bem; escute; o senhor conhece o Carlito, no conhece?
        - Se conheo!... muito; desde criana.
        - Pois saiba que foi ele quem se atreveu a desfeitear-me.
        - Deveras!... o Carlito? aquele fedelho, aquele biltrezinho?... que atrevido!... vou j puxar-lhe as orelhas e esfreg-lo a cachaes. 
        - Arrancar-lhe o corao, e beber-lhe o sangue  o que eu queria... mas escute, moo; eu preciso dizer-lhe toda a verdade; eu queria muito bem quele menino...
        - Queria-lhe bem?... deveras, Jupira?... ah!... por que razo no me falou isso h mais tempo?
        Quirino soltou um gemido abafado.
        - Como, se nem eu mesmo sabia? replicou-lhe a moa; empreguei bem mal o meu amor... mas no se aflija, moo; se era grande o amor, maior  o dio que hoje 
lhe tenho. Tinha vontade de ver varado a facadas aquele maldito, e pis-lo debaixo dos ps... ah! se eu pudesse virar-me em ona para estrafeg-lo entre meus dentes 
e chupar-lhe todo o sangue do corao!... mas o senhor quer o meu amor?... quer que eu seja sempre sua?...
        - Ah! no me pergunte; para t-la um s instante nos meus braos eu daria mil vidas que tivesse.
        - No  preciso que perca a vida; basta tir-la a outro. 
        Quirino estremeceu e fez um gesto de horror; espantava-o ver em to tenra idade aquela fria ferocidade e sede de vingana.
        - Tem medo, moo?... ah! pensei que era homem...
        - Medo, eu?... fale, Jupira; o que quer que eu faa?
        - Pois no me entende?...
        - Talvez no; fale claro, disse o mancebo ainda duvidando do que estava ouvindo.
        Jupira tirou tranqilamente a faca que tinha no seio e a apresentou a Quirino.
        - Carlito me desfeiteou, me atraioou, e eu no tive e nem sei se terei nimo de o matar... entretanto quero que ele morra. Sou uma fraca mulher; o pulso 
do homem  mais firme e certeiro. No pode morrer por minha mo, v ao menos minha faca beber-lhe o sangue.
        Quirino olhava espantado para a cabocla sem saber responder-lhe.
        - No tem nimo?... disse ela resolutamente; ento adeus, moo; no me aparea mais aqui...
        - Mas Jupira! - disse o mancebo hesitando - eu... no sei... matar uma pobre criana!...  uma barbaridade... oh! isso nunca!
        - Ah!...  assim que me quer bem? que me importa!... se o senhor no tem nimo, no faltar quem o mate, e ele h de morrer mesmo, e eu nunca hei! de ser 
sua.
        - Nunca! Ah! Jupira! Jupira! que palavra cruel! moa!... ah... no me ponha a perder... eu perco o juzo!
        - Vai ou no?
        - Jupira!...
        - Hei de am-lo tanto como odeio a Carlito.
        - Jupira! - ...ai!... eu perco a cabea...
        - V, v; eu juro que hei de ser sua; v... e tome este beijo em penhor de que hei de cumprir a minha palavra.
        Jupira enlaou o brao ao colo do mancebo, e imprimiu-lhe na boca seus lbios nacarados e ardentes. Aquele beijo alucinou-o, exaltou at ao delrio a sua 
paixo; foi como um filtro sutil e fatal, que coou-lhe at o mais ntimo d'alma, e nela vazou todo o dio, ferocidade e sede de vingana de que a cabocla se achava 
possuda, acabando com toda a sua indeciso.
        - D-me, d-me essa faca!... exclamou Quirino, e arrebatando a faca da mo de Jupira saiu precipitadamente.
        

CAPTULO IX
        
        Na noite desse mesmo dia Quirino foi procurar Carlito e o convidou para uma pescaria em canoa no Rio Verde, na manh do dia seguinte, que era um domingo. 
Carlito, que muito gostava desse gnero de divertimento, no outro dia bem cedo j estava pronto,  espera do companheiro, com seus anzis preparados e algumas provises 
de boca para passarem o dia no mato e sobre as guas. Saram ambos, a manh estava magnfica; os passarinhos faziam ouvir pelos pomares a mais festiva algazarra; 
o sino da capela repicava alegremente, derramando ecos sonoros por aquelas aprazveis deveras. 
        O Rio Verde coleando atravs dos vargedos, parecia uma luzente cobra de escamas de esmeralda, espreguiando-se  luz do sol formoso das solides. Pelas diversas 
veredas da colina viam-se diversos grupos de famlias camponesas com seus vestidos domingueiros de garridas cores, encaminhando-se para o seminrio, para ouvirem 
as missas e as prticas dos padres santos, que assim chamava a gente do serto aos padres da congregao.
        Carlito sentia o corao pular-lhe no peito cheio de vida, animao e alegria. Tinha acabado de assistir  missa matinal, onde estivera extasiado a contemplar 
e a trocar olhares expressivos com a meiga e formosa Roslia, e s essa lembrana era como um perfume que o embevecia nas mais suaves emoes.
        No assim Quirino que, com o esprito turbado por sombrios e sinistros pensamentos, parecia um rprobo, que traz na fronte o selo da condenao eterna, e 
debalde se esforava por ocultar a angustiosa agitao de sua alma. Encaminhavam-se rio acima, para um lugar chamado Olaria, onde o rio, depois de atravessar em 
carreira pressurosa os mais risonhos chapades, refletindo  flor do campo todo o esplendor daquele cu deslumbrante, como para descansar de suas correrias pelas 
campinas vem espreguiar-se sereno em um extenso e profundo remanso,  sombra de duas alas de frondentes e viosos capes.
        Chegados  beira do rio, os dois pescadores desprenderam uma pequena canoa, que ali estava agarrada com um cip a um tronco da margem. Quirino tomou na praia 
uma grande e pesada pedra e a colocou dentro da canoa.
        - Para que essa pedra? - perguntou Carlito.
        - Esta canoinha  muito doida, Carlito; esta pedra  para faz-la calar mais um pouco na gua, e no virar com a gente. 
        Soltaram a canoa e a tangeram rio abaixo pelo remanso de que falamos. Carlito preparou o seu anzol e o lanou na gua. Estava em p, no meio da canoa; com 
a vara em punho e os olhos fitos no rio. Por detrs dele Quirino, assentado  popa, manejava o remo. Quem os visse ento, havia de notar o extremo antagonismo que 
havia na expresso daquelas duas fisionomias. Carlito, com o olhar tranqilo, que revelava a placidez de sua alma to serena como a torrente mansa sobre que resvalava, 
tinha a ateno presa aos movimentos da linha de seu anzol, e um meio sorriso, como uma satisfao ntima lhe pairava pelos lbios. Quirino, com os olhos torvos 
e espantados, olhava com inquietao, ora para uma, ora para outra margem; ora apalpava a faca e fitava o olhar sinistro e desvairado sobre o adolescente que estava 
diante dele, ora deixava por instantes cair a fronte sobre o peito, em profundo abatimento. Seu esprito debatia-se entre os estertores da mais violenta e angustiosa 
luta. 
        Aquele mocinho to novo, to esbelto e garboso, com a alma to serena, to cheia de risonhas vises e doces sonhos de esperana; aquela criana descuidosa, 
que nenhum mal lhe fizera, que a ele se abandonava com to sincera e ingnua confiana, ter de cair vtima do seu punhal, ir servir de pasto a esses mesmos peixes 
que procurava atrair ao seu anzol, e com que esperava regalar-se!... O corao do mancebo fraquejava e tinha mpetos de arrojar ao rio a faca que lhe dera Jupira 
e dizer ao seu companheiro: - fujamos, Carlito, fujamos; um grande perigo aqui nos ameaa!
       Mas para logo surgia ante o seu esprito a linda e voluptuosa imagem de Jupira, que como o anjo do mal conjurava todos aqueles escrupulosos impulsos. O beijo 
de fogo, que lhe dera, ardia-lhe ainda nos lbios, e lhe fervia
no corao como um filtro peonhento que lhe queimava o sangue, e lhe escaldava o crebro em delrios de volpia. - Oh! pensava ele ainda contemplando com olhos 
cheios de inveja e de cime as esbeltas e bem talhadas formas e o encantador semblante do imberbe adolescente; - oh!este menino!... este menino!... e ela o amava!... 
por mais que diga que o odeia, esse dio no pode durar muito... e no fim de contas, se eu o poupar... quem sabe... ser ele o feliz amante, que h de vir a gozar 
detodos aqueles mimos, que eu h tanto tempo cobio com todo o ardor deminha alma!... oh! no? mil vezes no! j agora, Jupira, ainda que tearrependas mil vezes, 
ainda que venhas me pedir de joelhos por ele, tem de morrer!  preciso absolutamente, que eu te livre a ti e a mim desse rapazinho que estorva a nossa felicidade... 
eia! nimo!... antes que searrependa...
       E a canoa vinha suavemente resvalando  merc da torrente serena; Carlito, com semblante plcido e risonho, em p com a vara na mo, refletindo na gua lmpida 
do rio os contornos de sua gentil figura, cismava nos sorrisos e beijos de Roslia,  espera que o peixe lhe viesse morder no anzol, e por detrs dele hirto, medonho, 
sombrio, o vulto de Quirino com a faca em punho se ia erguendo sinistra e vagarosamente.
       
CAPTULO X

       Jupira passara a noite entre penosas insnias e sonhos pavorosos, entregue  mais horrvel agitao. Apenas adormecia via a figura de Quirino com os olhos 
torvos e abrasados, hirtos os cabelos, e nos lbios um feroz sorriso de triunfo, com as mos e o punhal banhados no sangue de Carlito, vir correndo a ela pedir-lhe 
o cumprimento de suas promessas.
       Outras vezes era Carlito que lhe aparecia plido, triste, abatido, com um punhal cravado no corao, e que com voz dorida vinha acabrunh-la com o peso de 
maldies e terrveis imprecaes. Mil outras hediondas vises se atropelavam em seu esprito, e os remorsos torturavam-lhe o corao.
       Mal despontou a primeira barra do dia que ela ansiosamente esperava, ergueu-se e quis sair; mas seu pai tinha o costume de guardar cuidadosamente todas as 
chaves das portas de fora, e foi-lhe foroso esperar, na mais angustiosa impacincia, que despertasse e se levantasse.
       Apenas pde sair, foi direta correndo a casa onde Quirino costumava hospedar-se. J no estava em casa; soube que tinha sado ao romper do dia.
       - Ai de mim! - disse ela na mais extrema aflio;- Deus sabe o que ter acontecido... meu Deus!... meu Deus!... ser j tarde!
       Dali correu imediatamente ao seminrio, onde Carlito morava. Um criado disse que tinha sado muito cedo, e que no sabia para onde tinha ido.
       - Ai! meu Deus! meu Deus! que ser dele!... desgraada de mim! - saiu a menina exclamando na maior consternao, e dali se foi sempre a correr a casa de Genoveva. 
Esta e sua filha acabavam de chegar da missa, e perguntando-lhes Jupira se no tinham visto Carlito.
       - Esteve conosco ainda agora, lhe disseram, na missa da madrugada, e nos disse que dali ia para o Rio Verde passar o dia e pescar com o Sr.Quirino, que estava 
junto com ele.
       Com esta notcia a aflio e angstia da rapariga subiram ao ltimo ponto, cobriu-se de palidez mortal, cambaleou, e foi preciso encostar-se  parede para 
no ir ao cho.
       - Para que banda foram eles, perguntou ela ainda com ar to inquietoe perturbado que surpreendeu as duas mulheres.
       - Foram para a banda da Olaria, - respondeu Genoveva; - mas o que tens, minha filha, que ests to assustada?... aconteceu alguma coisa?...
       Sem nada responder, com grande espanto das duas mulheres, Jupira de um salto ps-se da parte de fora, e l se foi a correr para o lado da Olaria, que distava 
dali quase meia lgua.
       Dirigiu-se para o remanso, onde esperava encontr-los, penetrou pela estreita ourela de mato que bordeja o rio naquela paragem, e chegou  borda esbaforida, 
desgrenhada e torva como uma ona malferida. Lanou os olhos pelo rio acima, e viu a canoa boiando serena pela torrente abaixo, em meio dela Carlito em p com seu 
anzol na mo pescando tranqilamente, e por detrs dele Quirino com a faca alada... Sbita vertigem cobriu-lhe os olhos de uma nuvem cor de sangue, e antes que 
ela pudesse soltar um grito, a faca tinha descido trs vezes sobre as costas da infeliz vtima, que sem soltar um ai caiu de bruos no fundo da canoa golfando sangue 
aos borbotes.
       Atravs da caligem que lhe turvava os olhos, Jupira viu aquela horrvel cena como em um pesadelo, bateu palmas, e deu um grito, antes um uivo horroroso, com 
os braos em tremor convulsivo estendidos para o cu.
       Quirino assustado olhou rapidamente para aquele lado; mas depois que reconheceu Jupira: 
       - Est satisfeita? - bradou de longe mostrando a faca ensangentada, e apontando para o fundo da canoa, onde jazia o cadver de Carlito estrebuchando e vomitando 
sangue.
       - Bravo! bravo!.. muito bem! gritou a cabocla, com um sorriso de infernal ironia. - Agora venha! venha depressa receber o prmio...
       - Espera l ainda, minha Jupira; preciso dar sepultura a este desgraado...
       Falando assim, Quirino desatava da cintura uma forte e comprida cinta de duas voltas, que trazia de propsito, destinada a atar ao pescoo de Carlito a pedra, 
que pusera na canoa, e atir-lo ao fundo do rio.
       - Ainda no, moo!... espera.... traze-o c... quero v-lo ainda uma vez... coitado... era to bonitinho!...
       Quirino, ainda que um tanto receoso de qualquer fatal contingncia, no ousou replicar-lhe; aquela mulher exercia um ascendente irresistvel sobre aqueles 
que a amavam.- Quirino tocou a canoa para a margem. Jupira contemplou muda, por alguns instantes, o cadver de seu infeliz amante com os braos cruzados, os olhos 
em brasa, engolindo lgrimas e soluos, que ningum poderia dizer se eram de furor ou de angstia, de d ou de terror, de remorso ou de desesperao, porque era 
de tudo ao mesmo tempo.
       - Est satisfeita comigo? perguntou o mancebo olhando para ela com terror e desconfiana.
       - Oh! muito! muito! - respondeu-lhe com um sorriso satnico, - agora pode entregar-me a minha faca.
       Quirino assombrado restituiu-lhe a faca ensangentada.
       - Bem! podemos agora dar sepultura a este pobrezinho, disse apontando para o meio do rio, e entrando para a canoa. Quirino tangeu-a para o meio do rio. 
       - Olha, moo! continuou ela com os olhos fitos no cadver; - no era to lindo o meu Carlito!... oh! muito!... muito lindo!... quero dar-lhe ainda um beijo... 
no tenha cimes, moo...  um derradeiro adeus.
       Jupira abaixou-se sobre o cadver que estava de bruos, afogado em sangue, voltou-o de costas, e cobriu-lhe os lbios e as faces de ardentes e repetidos beijos. 
Transido de assombro e de terror, Quirino contemplava aquela cena.
       Quando ela levantou-se com os lbios, as faces e o colo manchados no sangue de Carlito, estava hedionda!... Quirino horrorizado estava quase a lanar-se ao 
rio. Mas ela imediatamente ameigando a voz, e abrindo-lhe os braos:
       - Agora sou tua, - disse, - abraa-me!
       Quirino arrojou-se aos braos dela com o frenesi de uma paixo louca, que o levara a praticar o mais vil e hediondo assassinato. Mas ao mesmo tempo que a 
ia apertando contra o peito, a faca de Jupira lhe ia atravessando o corao, e nas vascas da morte ele ouvia uma voz rouca e sinistra rosnar-lhe ao ouvido estas 
palavras:
       - Morre tambm, vil matador! eu no te quero...
       Dois dias depois encontrou-se boiando, j a uma lgua de distncia, uma canoa sem ningum que a governasse, mas tripulada por uma multido de urubus, que 
disputavam entre si os restos de dois cadvares.
       Quanto a Jupira, sumiu-se, e nunca mais se soube ao certo o que foi feito dela.
       Passados tempos, uns caadores encontraram em uma grota no seio de uma mata profunda o esqueleto de uma mulher pendurado a uma rvore por um cip. Presume-se 
com muita probabilidade que era Jupira que se havia enforcado.


ASSOCIAO ACERVOS LITERRIOS
EM APOIO AO CELLB/UFOP

Esta edio contou com o apoio do CNPq. 

        
1 Lagarto grande
2 Espcie de pequena palmeira, de cujos espatos os ndios fabricam cordas fortssimas. 
??

??

??

??
